Andei aqui a vasculhar um cd com músicas antigas e eis que encontro "Cão muito mau" dos BoiteZuleika (que aparentemente só têm esta canção conhecida). E não sei porquê aparece no ficheiro que é cantada pelo Jorge Palma. Aparentemente na altura não achei isto estranho. Mas também nessa altura qualquer coisa cantada em português, e que não viesse do maravilhoso David Fonseca, podia ser Jorge Palma, Zeca Afonso, do outro dos Blind Zero ou Delfins.domingo, dezembro 30
Somos todos cães ruins
Andei aqui a vasculhar um cd com músicas antigas e eis que encontro "Cão muito mau" dos BoiteZuleika (que aparentemente só têm esta canção conhecida). E não sei porquê aparece no ficheiro que é cantada pelo Jorge Palma. Aparentemente na altura não achei isto estranho. Mas também nessa altura qualquer coisa cantada em português, e que não viesse do maravilhoso David Fonseca, podia ser Jorge Palma, Zeca Afonso, do outro dos Blind Zero ou Delfins.segunda-feira, dezembro 10
Espalhada por aí
http://ouvidoporacaso.blogspot.com/2007/12/e-porque-no-j-empacotado.html
E aqui, uma foto artística da Dona Mãe, a quem eu roubei o protagonismo
http://superbloglimao.blogs.sapo.pt/36632.html
terça-feira, novembro 27
A tosta é mesmo de quê menina?
A Ambrosia cá de casa tinha pedido antes de mim uma tosta de queijo com manteiga. Pedido fácil de lembrar. Só uma tosta. Dirijo-me então ao balcão, e a senhora começa num lento e demorado processo a contar moedas. Assim, do nada. Moedas daquelas pequenas, pretas. E claro, conta-as uma a uma, coloca-as na bancada, o som horrível do metal no metal a arrepiar-me os dentes.
Espreito lá para dentro da cozinha, a ver se detecto outra empregada por ali. Algumas passam a conversar, uma arrasta uma saca de batatas. Lá vão as batatas, lá vai a empregada faladora, e eu à espera que aquela que conta as moedas se lembre que estou ali. Acaba a tarefa, levanta aqueles olhos pequeninos e deslavados e, ignorando-me completamente, pergunta lá para o fundo do bar à Ambrosia de que era a tosta. Cérebro pequeno o da mulher, gaita. Já nem sabe o que lhe tinha sido pedido uns minutos antes, com ou sem moedas à mistura.
- De queijo, com manteiga.
E só então é que a senhora lá vai (devagar, devagar) pôr a tosta a fazer. Antes limpa a tostadeira, gestos lentos, cuidados e eu à espera. A das batatas já se tinha escondido. Nada a fazer, só aquela imbecil é que me podia atender.
Finalmente, lá vem ela. Devagar, devagarinho, que isto de servir atrás de um balcão é uma valsa compassada, os passos bem medidos para que ninguém julgue que ela se está a esforçar muito. Mal de nós pensar isso! Só me apetece voltar-lhe as costas, mas enfim, muito tranquila lá lhe peço o meu queque de noz. Até me soube a ineficácia, aquele.
Mulherzinha irritante…
segunda-feira, novembro 26
rehcsE
sexta-feira, novembro 16
terça-feira, novembro 13
Tirar o kitsch da vida
"Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch"
Depois de ler "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera, percebi finalmente o que quer dizer Kitsch.
Já tinha ouvido a palavra, é certo. Associava-a sempre a um tipo qualquer de arte, moderna, contemporânea e assim meio foleira. Segundo o wikipédia, kitsch são gnomos no jardim, estatuetas de gatos pequenos e coloridos, molduras cheias de rococós, enfim, um sem número de coisas obsoletas e que, em jeito de biblôt, as pessoas vão espalhando e empilhando pelas casas..
De acordo com o site o kitsch descreve-se do seguinte modo:
Princípio da inadequação – Dar funções secundárias aos objectos, desprovendo-os da sua importância real. É dizer a um abridor de latas que a flor que o enfeita e lhe dá a sua graça é bem mais útil do que as rodas dentadas que o vestem. Assim mais ou menos isto.
Princípio da acumulação – Coleccionar coisas que não possuam valor monetário, antes emocional. Poderá o objecto em questão ter valor dos dois modos? Acho que isso já não seria kitsch, porque aí todos poderiam valorizar a nossa preciosa “acumulação” nem que fosse pelo dinheiro que teria custado. Colecção kitsch tem de ser, portanto, inútil, de coisas que aos olhos dos outros se afiguram como lixo mas que para o praticante kitschiano assume contornos de tesouros e fortunas de mil índias longínquas.
Percepção sinestésica – Exemplo: cartões de namorados perfumados… Nada mais a acrescentar, excepto que o kitsch começa já a misturar-se com a pirosice do pior.
Princípio da mediocridade – Tudo médio, nada de extremos.
Como diz Kundera: “É a negação absoluta da merda. (...) Kitsch exclui do seu campo de visão tudo o que a existência tem de essencialmente inaceitável”. Foi esta parte do livro que mais me cativou, fiquei suspensa a cada palavra que ele ia desenrolando para descrever o kitsch na sociedade e na arte. Deus criou-nos a fazer merda (literal e figurativamente), mas para o movimento kitsch, tal facto é por si só, sórdido e asqueroso o suficiente para que seja eliminado da existência humana. Ou pelo menos esquecido. Negá-lo é negar os podres do homem, a sua fragilidade e imundice. Negá-lo é esquecer os instintos básicos que nos tomam de assalto e, por vezes, nos fazem ser tão extremos, tão pouco medíocres. É elevar a pessoa a ser perfeito, plástico, que não tem intestinos e, portanto, não evacua. Como ele dizia que Jesus não fazia. Comia, digeria, mas não evacuava.
Mas por ora chegam de conversas tão indecorosas.
segunda-feira, outubro 22
O dia em que me chamei Nati

E esperando eu encontrar uma quinta rústica e típicamente holandesa (seja lá isso o que for), eis que se nos depara esta casa, perdida no fim da vila com 300 pessoas. Anfitriões - uma cadela irrequieta chamada Birkel, duas cabras, um porco e a preguiçosa Babushka, uma gata enorme. Na casa divisões e regras claras - andar descalços no andar dos quartos e só fumar erva nas salas específicas para tal. Claro, nem nos passou pela cabeça ir fumar droga para as outras salas!
Mais um tijolo amarelo nesta estrada de recordações, a viagem um atalho de aventuras e campos de flores que nos faziam adormecer (ou rir muito e dizer que queríamos encher o cabelo de tranças, a língua travada numa súbita amnésia de inglês).
Para nunca esquecer: a viagem interminável pelos diques holandeses, em bicicletas que não tinham travões, chuva torrencial a apimentar o dia cinzento. Espinhos nos pés, vodka no chantili, e um Quim Barreiros na televisão, versão língua-de-trapos.
P.S.:Recompensa-se com crepes de chocolate algum gentil amigo que saiba holandês e consiga traduzir a notícia.
quarta-feira, outubro 17
O mistério das batatas fritas
- Sabes de que são feitas as batatas fritas no MacDonalds?
- Não... Não são feitas de batatas mesmo?
- Sim, mas... eles fazem é um puré antes e é desse puré que tiram palitos para fritar. Não fazem os palitos directamente das batatas como nós fazemos em casa.
- Ah, estranho. Ao menos usam mesmo batatas.
The one and only
E agora a história do Espantalho de Oz.
O espantalho foi o primeiro dos amigos que Dorothy fez na Terra de Oz, na sua saga pelo caminho amarelo, em busca de uma casa que afinal ficava a uns sapatinhos vermelhos de distância. Se ela soubesse isto, aposto que nunca se teria posto a caminhar sozinha por aquele trilho cheio de coisas estranhas, só com um cão raça porta-chaves como guardião. Mas podia lá ela adivinhar o poder que aquelas sabrinas com brilhantes vermelhuscos tinham...
Estava a Dorothy em busca da Cidade de Esmeralda quando ouviu qualquer coisa a mexer num campo de milho, onde encontrou o nosso caro espantalho. Que não tinha cérebro. Ou assim julgava ele. Pelos vistos tinha, porque sabia dançar, e para dançar precisa-se de um cérebro, ainda que não muito evoluído, mas ainda assim um cérebro. E não feito de palha, como o dele. Um dos verdadeiros, dividido em lobos uivantes e com sinapses, neurónios e tudo o que um cérebro dos bons implica.
E o brainless espantalho lá foi com a menina perdida, os dois novos amigos seguindo alegremente pela estrada fora, encontrando depois outros dois personagnes, também eles com falta de qualquer coisa que pelos vistos sempre tinham tido all along (assim o dita a moral da história). No fim de toda a aventura, no fim de canções infindáveis com aquelas gentes pequenas e de macacos que voavam, no fim de destruírem o farsante do Feiticeiro de Oz, o espantalho é nomeado reinante, imperador, presidente do reino de Oz. Isto, claro, porque ele já tinha demonstrado possuir um cérebro, ninguém vai reinar um sítio tão esplendoroso e com fadas tão bonitas como a Gilda sem saber pensar; o seu problema era falta de confiança e o cérebro tinha lá estado o tempo todo. Termina em bem a história deste amiguinho da Dorothy.
Segundo o wikipédia, o espantalho na história de L. Frank Baum (autor dos vários livros sobre Oz) é na verdade uma alegoria muito alegre aos agricultores norte-americanos. Porque eles também eram como o espantalho. Muito inteligentes, sim senhor, com um senso-comum forte e sabedoria infinita, só precisavam de um empurrãozito. "(...) the popular image of the American farmer—although he has been persuaded that he is only a dumb hick, he possesses a strong common sense, remarkable insight and quick-wittedness that needs only to be reinforced by self confidence."
Ah, e curiosidade final: no filme cortaram algumas cenas que indiciavam um possível romance entre a Dorothy do Kansas e o Hunk (o agricultor da quinta dos tios e que supostamente era o espantalho no sonho dela). Bem me parecia que ela preferia o espantalho aos outros enlatados ou leões pouco corajosos.
Eu também o prefiro, o espantalho. Sabe dançar :)
segunda-feira, outubro 15
Muro caiado

És como uma parede. Atiro tudo o que sou, tudo o que tenho e nada parece mexer nesse muro caiado que és. Uma parede gigante, enorme e branca, parada no tempo, imobilizada à minha frente. A brancura queima os olhos quando o sol em ti se reflecte, as ervas paradas vão crescendo em teu redor. Mas na placidez do meio-dia nada mexe, o ar cortado passa pelos teus ombros, arestas frias que anunciam o fim da tua figura. Não te sinto, não te toco; de ti nem um cheiro me chega, o teu silêncio tapa-me a boca e permaneço assim, à tua frente, à tua espera. Já te atingi com tudo o que tinha, mil palavras inférteis já treparam pelo verde que tens colado ao corpo. E nenhum fruto nasceu, o calcário do teu muro matou tudo.
Assim cá estou, sentada diante de ti, as mãos mais vazias do que os olhos. Esses estão sempre atentos. Qualquer movimento, uma sombra fugaz, um pássaro preto que pousa no cimo dos teus cabelos. Nada escapa, pois ainda que parada, não cesso de te contemplar. Inutilmente. Nada a estranhar nisso. São sempre inúteis os punhados de terra que te atiro.
Se substituirmos “muro” por espantalho, continua a fazer sentido?
A Dorothy que decida.
