quarta-feira, janeiro 30

This time tomorrow

This time tomorrow where will we be
On a spaceship somewhere sailing across an empty sea
This time tomorrow what will we know

I'll leave the sun behind me



Esta música dos The Kinks faz parte da banda sonora do filme "The Darjeeling limited" e desde que o vi a semana passada que não me sai da cabeça. Esta, e muitas outras. Até aquelas indianas que não consigo cantarolar mentalmente, mas cujos ritmos me enchem os pensamentos em todos os instantes do dia. Bom, quase todos.


Já li algumas críticas do filme, opiniões e descrições em jornais e sites. No entanto, nenhuma expressa bem o que o filme trouxe de novo ao meu mundo. Há qualquer coisa de indescritível no modo como me senti no fim de o ver. Uma leveza, talvez. E uma vontade enorme de ir à Índia. Tivesse sido sobre a história de três irmãos que partem numa viagem espiritual (que como um deles acaba por admitir, não correu assim tão bem) à Antártida e eu queria neste momento saltar para um trenó. Mas isso já faz parte da minha natureza "facilmente entusiasmável".


O que importa é a maneira deliciosa como a história foi contada, os pormenores, as piadas e o modo como escondiam um sentimento profundo. Que ainda não identifiquei bem, agora que penso nisto. A tal leveza. Ou uma saudade de não sei bem o quê. Um mistério. Mais uns dias e talvez descubra o que realmente o filme me disse. Ou se calhar preciso de uma viagem espiritual num comboio com nome de chá.



domingo, dezembro 30

Somos todos cães ruins

Andei aqui a vasculhar um cd com músicas antigas e eis que encontro "Cão muito mau" dos BoiteZuleika (que aparentemente só têm esta canção conhecida). E não sei porquê aparece no ficheiro que é cantada pelo Jorge Palma. Aparentemente na altura não achei isto estranho. Mas também nessa altura qualquer coisa cantada em português, e que não viesse do maravilhoso David Fonseca, podia ser Jorge Palma, Zeca Afonso, do outro dos Blind Zero ou Delfins.

E cá vou ouvindo a história do cão mau. Que nem é bem uma história. A letra são praí duas ou três frases no modo repeat. Até tem piada, apesar de tudo.


segunda-feira, dezembro 10

Espalhada por aí

Aqui podem ver como uma certa e determinada professora é, de um certo e determinado modo, BURRA!

http://ouvidoporacaso.blogspot.com/2007/12/e-porque-no-j-empacotado.html


E aqui, uma foto artística da Dona Mãe, a quem eu roubei o protagonismo

http://superbloglimao.blogs.sapo.pt/36632.html

terça-feira, novembro 27

A tosta é mesmo de quê menina?

A Ambrosia cá de casa tinha pedido antes de mim uma tosta de queijo com manteiga. Pedido fácil de lembrar. Só uma tosta. Dirijo-me então ao balcão, e a senhora começa num lento e demorado processo a contar moedas. Assim, do nada. Moedas daquelas pequenas, pretas. E claro, conta-as uma a uma, coloca-as na bancada, o som horrível do metal no metal a arrepiar-me os dentes.

Espreito lá para dentro da cozinha, a ver se detecto outra empregada por ali. Algumas passam a conversar, uma arrasta uma saca de batatas. Lá vão as batatas, lá vai a empregada faladora, e eu à espera que aquela que conta as moedas se lembre que estou ali. Acaba a tarefa, levanta aqueles olhos pequeninos e deslavados e, ignorando-me completamente, pergunta lá para o fundo do bar à Ambrosia de que era a tosta. Cérebro pequeno o da mulher, gaita. Já nem sabe o que lhe tinha sido pedido uns minutos antes, com ou sem moedas à mistura.

- De queijo, com manteiga.

E só então é que a senhora lá vai (devagar, devagar) pôr a tosta a fazer. Antes limpa a tostadeira, gestos lentos, cuidados e eu à espera. A das batatas já se tinha escondido. Nada a fazer, só aquela imbecil é que me podia atender.

Finalmente, lá vem ela. Devagar, devagarinho, que isto de servir atrás de um balcão é uma valsa compassada, os passos bem medidos para que ninguém julgue que ela se está a esforçar muito. Mal de nós pensar isso! Só me apetece voltar-lhe as costas, mas enfim, muito tranquila lá lhe peço o meu queque de noz. Até me soube a ineficácia, aquele.

Mulherzinha irritante…


segunda-feira, novembro 26

rehcsE



“Se nunca me tivesse visto ao espelho e tivesse que descrever a minha aparência exterior de acordo com o que sei interiormente de mim, o retrato não seria nada parecido com aquilo que vês quando me olhas!”


A valsa do adeus

Milan Kundera

sexta-feira, novembro 16

Goo Goo G'Joob


E finalmente o Jeremy descobre boa música.

terça-feira, novembro 13

Tirar o kitsch da vida


"Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch"


Depois de ler "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera, percebi finalmente o que quer dizer Kitsch.

Já tinha ouvido a palavra, é certo. Associava-a sempre a um tipo qualquer de arte, moderna, contemporânea e assim meio foleira. Segundo o wikipédia, kitsch são gnomos no jardim, estatuetas de gatos pequenos e coloridos, molduras cheias de rococós, enfim, um sem número de coisas obsoletas e que, em jeito de biblôt, as pessoas vão espalhando e empilhando pelas casas..

De acordo com o site o kitsch descreve-se do seguinte modo:


Princípio da inadequação – Dar funções secundárias aos objectos, desprovendo-os da sua importância real. É dizer a um abridor de latas que a flor que o enfeita e lhe dá a sua graça é bem mais útil do que as rodas dentadas que o vestem. Assim mais ou menos isto.


Princípio da acumulação – Coleccionar coisas que não possuam valor monetário, antes emocional. Poderá o objecto em questão ter valor dos dois modos? Acho que isso já não seria kitsch, porque aí todos poderiam valorizar a nossa preciosa “acumulação” nem que fosse pelo dinheiro que teria custado. Colecção kitsch tem de ser, portanto, inútil, de coisas que aos olhos dos outros se afiguram como lixo mas que para o praticante kitschiano assume contornos de tesouros e fortunas de mil índias longínquas.


Percepção sinestésica – Exemplo: cartões de namorados perfumados… Nada mais a acrescentar, excepto que o kitsch começa já a misturar-se com a pirosice do pior.


Princípio da mediocridade – Tudo médio, nada de extremos.


Como diz Kundera: “É a negação absoluta da merda. (...) Kitsch exclui do seu campo de visão tudo o que a existência tem de essencialmente inaceitável”. Foi esta parte do livro que mais me cativou, fiquei suspensa a cada palavra que ele ia desenrolando para descrever o kitsch na sociedade e na arte. Deus criou-nos a fazer merda (literal e figurativamente), mas para o movimento kitsch, tal facto é por si só, sórdido e asqueroso o suficiente para que seja eliminado da existência humana. Ou pelo menos esquecido. Negá-lo é negar os podres do homem, a sua fragilidade e imundice. Negá-lo é esquecer os instintos básicos que nos tomam de assalto e, por vezes, nos fazem ser tão extremos, tão pouco medíocres. É elevar a pessoa a ser perfeito, plástico, que não tem intestinos e, portanto, não evacua. Como ele dizia que Jesus não fazia. Comia, digeria, mas não evacuava.

Mas por ora chegam de conversas tão indecorosas.


segunda-feira, outubro 22

O dia em que me chamei Nati


Eu, a Márilene e a Hellena em terra longínquas, algures entre diques e bicicletas para gigantes!

Esta notícia saiu no jornal holandês online, o Het Carillon, editado pelo dono da pousada da juventude em que ficámos, na vila de Alem (pronunciar Arrem ou algo semelhantemente arranhado). E nem era bem uma pousada de juventude, era mais uma casa, um verdadeiro puzzle de objectos e mobílias diferentes, num misto de quartos pequenos e com temas como a Holanda (ou o futebol holandês), África ou o Tibete. Era antes uma casa que acolhia jovens viajantes, ou, como eles descreviam, uma Animal Farm.

E esperando eu encontrar uma quinta rústica e típicamente holandesa (seja lá isso o que for), eis que se nos depara esta casa, perdida no fim da vila com 300 pessoas. Anfitriões - uma cadela irrequieta chamada Birkel, duas cabras, um porco e a preguiçosa Babushka, uma gata enorme. Na casa divisões e regras claras - andar descalços no andar dos quartos e só fumar erva nas salas específicas para tal. Claro, nem nos passou pela cabeça ir fumar droga para as outras salas!

Mais um tijolo amarelo nesta estrada de recordações, a viagem um atalho de aventuras e campos de flores que nos faziam adormecer (ou rir muito e dizer que queríamos encher o cabelo de tranças, a língua travada numa súbita amnésia de inglês).

Para nunca esquecer: a viagem interminável pelos diques holandeses, em bicicletas que não tinham travões, chuva torrencial a apimentar o dia cinzento. Espinhos nos pés, vodka no chantili, e um Quim Barreiros na televisão, versão língua-de-trapos.

P.S.:Recompensa-se com crepes de chocolate algum gentil amigo que saiba holandês e consiga traduzir a notícia.


quarta-feira, outubro 17

O mistério das batatas fritas

Conversa com uma das Ambrósias cá de casa, numa fila eterna para almoçar:

- Sabes de que são feitas as batatas fritas no MacDonalds?

- Não... Não são feitas de batatas mesmo?

- Sim, mas... eles fazem é um puré antes e é desse puré que tiram palitos para fritar. Não fazem os palitos directamente das batatas como nós fazemos em casa.

- Ah, estranho. Ao menos usam mesmo batatas.

The one and only

E agora a história do Espantalho de Oz.

O espantalho foi o primeiro dos amigos que Dorothy fez na Terra de Oz, na sua saga pelo caminho amarelo, em busca de uma casa que afinal ficava a uns sapatinhos vermelhos de distância. Se ela soubesse isto, aposto que nunca se teria posto a caminhar sozinha por aquele trilho cheio de coisas estranhas, só com um cão raça porta-chaves como guardião. Mas podia lá ela adivinhar o poder que aquelas sabrinas com brilhantes vermelhuscos tinham...

Estava a Dorothy em busca da Cidade de Esmeralda quando ouviu qualquer coisa a mexer num campo de milho, onde encontrou o nosso caro espantalho. Que não tinha cérebro. Ou assim julgava ele. Pelos vistos tinha, porque sabia dançar, e para dançar precisa-se de um cérebro, ainda que não muito evoluído, mas ainda assim um cérebro. E não feito de palha, como o dele. Um dos verdadeiros, dividido em lobos uivantes e com sinapses, neurónios e tudo o que um cérebro dos bons implica.

E o brainless espantalho lá foi com a menina perdida, os dois novos amigos seguindo alegremente pela estrada fora, encontrando depois outros dois personagnes, também eles com falta de qualquer coisa que pelos vistos sempre tinham tido all along (assim o dita a moral da história). No fim de toda a aventura, no fim de canções infindáveis com aquelas gentes pequenas e de macacos que voavam, no fim de destruírem o farsante do Feiticeiro de Oz, o espantalho é nomeado reinante, imperador, presidente do reino de Oz. Isto, claro, porque ele já tinha demonstrado possuir um cérebro, ninguém vai reinar um sítio tão esplendoroso e com fadas tão bonitas como a Gilda sem saber pensar; o seu problema era falta de confiança e o cérebro tinha lá estado o tempo todo. Termina em bem a história deste amiguinho da Dorothy.

Segundo o wikipédia, o espantalho na história de L. Frank Baum (autor dos vários livros sobre Oz) é na verdade uma alegoria muito alegre aos agricultores norte-americanos. Porque eles também eram como o espantalho. Muito inteligentes, sim senhor, com um senso-comum forte e sabedoria infinita, só precisavam de um empurrãozito. "(...) the popular image of the American farmer—although he has been persuaded that he is only a dumb hick, he possesses a strong common sense, remarkable insight and quick-wittedness that needs only to be reinforced by self confidence."

Ah, e curiosidade final: no filme cortaram algumas cenas que indiciavam um possível romance entre a Dorothy do Kansas e o Hunk (o agricultor da quinta dos tios e que supostamente era o espantalho no sonho dela). Bem me parecia que ela preferia o espantalho aos outros enlatados ou leões pouco corajosos.

Eu também o prefiro, o espantalho. Sabe dançar :)