
“Se nunca me tivesse visto ao espelho e tivesse que descrever a minha aparência exterior de acordo com o que sei interiormente de mim, o retrato não seria nada parecido com aquilo que vês quando me olhas!”
A valsa do adeus
Milan Kundera
"Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch"
Depois de ler "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera, percebi finalmente o que quer dizer Kitsch.
Já tinha ouvido a palavra, é certo. Associava-a sempre a um tipo qualquer de arte, moderna, contemporânea e assim meio foleira. Segundo o wikipédia, kitsch são gnomos no jardim, estatuetas de gatos pequenos e coloridos, molduras cheias de rococós, enfim, um sem número de coisas obsoletas e que, em jeito de biblôt, as pessoas vão espalhando e empilhando pelas casas..
De acordo com o site o kitsch descreve-se do seguinte modo:
Princípio da inadequação – Dar funções secundárias aos objectos, desprovendo-os da sua importância real. É dizer a um abridor de latas que a flor que o enfeita e lhe dá a sua graça é bem mais útil do que as rodas dentadas que o vestem. Assim mais ou menos isto.
Princípio da acumulação – Coleccionar coisas que não possuam valor monetário, antes emocional. Poderá o objecto em questão ter valor dos dois modos? Acho que isso já não seria kitsch, porque aí todos poderiam valorizar a nossa preciosa “acumulação” nem que fosse pelo dinheiro que teria custado. Colecção kitsch tem de ser, portanto, inútil, de coisas que aos olhos dos outros se afiguram como lixo mas que para o praticante kitschiano assume contornos de tesouros e fortunas de mil índias longínquas.
Percepção sinestésica – Exemplo: cartões de namorados perfumados… Nada mais a acrescentar, excepto que o kitsch começa já a misturar-se com a pirosice do pior.
Princípio da mediocridade – Tudo médio, nada de extremos.
Como diz Kundera: “É a negação absoluta da merda. (...) Kitsch exclui do seu campo de visão tudo o que a existência tem de essencialmente inaceitável”. Foi esta parte do livro que mais me cativou, fiquei suspensa a cada palavra que ele ia desenrolando para descrever o kitsch na sociedade e na arte. Deus criou-nos a fazer merda (literal e figurativamente), mas para o movimento kitsch, tal facto é por si só, sórdido e asqueroso o suficiente para que seja eliminado da existência humana. Ou pelo menos esquecido. Negá-lo é negar os podres do homem, a sua fragilidade e imundice. Negá-lo é esquecer os instintos básicos que nos tomam de assalto e, por vezes, nos fazem ser tão extremos, tão pouco medíocres. É elevar a pessoa a ser perfeito, plástico, que não tem intestinos e, portanto, não evacua. Como ele dizia que Jesus não fazia. Comia, digeria, mas não evacuava.
Mas por ora chegam de conversas tão indecorosas.

E agora a história do Espantalho de Oz.
O espantalho foi o primeiro dos amigos que Dorothy fez na Terra de Oz, na sua saga pelo caminho amarelo, em busca de uma casa que afinal ficava a uns sapatinhos vermelhos de distância. Se ela soubesse isto, aposto que nunca se teria posto a caminhar sozinha por aquele trilho cheio de coisas estranhas, só com um cão raça porta-chaves como guardião. Mas podia lá ela adivinhar o poder que aquelas sabrinas com brilhantes vermelhuscos tinham...
Estava a Dorothy em busca da Cidade de Esmeralda quando ouviu qualquer coisa a mexer num campo de milho, onde encontrou o nosso caro espantalho. Que não tinha cérebro. Ou assim julgava ele. Pelos vistos tinha, porque sabia dançar, e para dançar precisa-se de um cérebro, ainda que não muito evoluído, mas ainda assim um cérebro. E não feito de palha, como o dele. Um dos verdadeiros, dividido em lobos uivantes e com sinapses, neurónios e tudo o que um cérebro dos bons implica.
E o brainless espantalho lá foi com a menina perdida, os dois novos amigos seguindo alegremente pela estrada fora, encontrando depois outros dois personagnes, também eles com falta de qualquer coisa que pelos vistos sempre tinham tido all along (assim o dita a moral da história). No fim de toda a aventura, no fim de canções infindáveis com aquelas gentes pequenas e de macacos que voavam, no fim de destruírem o farsante do Feiticeiro de Oz, o espantalho é nomeado reinante, imperador, presidente do reino de Oz. Isto, claro, porque ele já tinha demonstrado possuir um cérebro, ninguém vai reinar um sítio tão esplendoroso e com fadas tão bonitas como a Gilda sem saber pensar; o seu problema era falta de confiança e o cérebro tinha lá estado o tempo todo. Termina em bem a história deste amiguinho da Dorothy.
Segundo o wikipédia, o espantalho na história de L. Frank Baum (autor dos vários livros sobre Oz) é na verdade uma alegoria muito alegre aos agricultores norte-americanos. Porque eles também eram como o espantalho. Muito inteligentes, sim senhor, com um senso-comum forte e sabedoria infinita, só precisavam de um empurrãozito. "(...) the popular image of the American farmer—although he has been persuaded that he is only a dumb hick, he possesses a strong common sense, remarkable insight and quick-wittedness that needs only to be reinforced by self confidence."
Ah, e curiosidade final: no filme cortaram algumas cenas que indiciavam um possível romance entre a Dorothy do Kansas e o Hunk (o agricultor da quinta dos tios e que supostamente era o espantalho no sonho dela). Bem me parecia que ela preferia o espantalho aos outros enlatados ou leões pouco corajosos.
Eu também o prefiro, o espantalho. Sabe dançar :)

És como uma parede. Atiro tudo o que sou, tudo o que tenho e nada parece mexer nesse muro caiado que és. Uma parede gigante, enorme e branca, parada no tempo, imobilizada à minha frente. A brancura queima os olhos quando o sol em ti se reflecte, as ervas paradas vão crescendo em teu redor. Mas na placidez do meio-dia nada mexe, o ar cortado passa pelos teus ombros, arestas frias que anunciam o fim da tua figura. Não te sinto, não te toco; de ti nem um cheiro me chega, o teu silêncio tapa-me a boca e permaneço assim, à tua frente, à tua espera. Já te atingi com tudo o que tinha, mil palavras inférteis já treparam pelo verde que tens colado ao corpo. E nenhum fruto nasceu, o calcário do teu muro matou tudo.
Assim cá estou, sentada diante de ti, as mãos mais vazias do que os olhos. Esses estão sempre atentos. Qualquer movimento, uma sombra fugaz, um pássaro preto que pousa no cimo dos teus cabelos. Nada escapa, pois ainda que parada, não cesso de te contemplar. Inutilmente. Nada a estranhar nisso. São sempre inúteis os punhados de terra que te atiro.
Se substituirmos “muro” por espantalho, continua a fazer sentido?
A Dorothy que decida.

"Kiss me, oh kiss me
we've all been there too"
When the fight is over
and the storm is through
will you pick another
what will you get into?
So you stand in the corner
with those boxing gloves on you
you're all scared and lonely
we've all been there too
Kiss me, kiss me
if that can make it right
try me, defy me
just throw them on me
those failed expectations,
floods and aflictions
you're through
'cus I just might
take them home with me
And the cracks in the pavement
we've all fell there before
and bones built into skeletons
we've all been through that door
Kiss me, oh kiss me
if that can make it right
try me, defy me
just throw them on me
those failed expectations,
floods and aflictions
you're through
'cus I just might
take you home with me
Kiss me, oh kiss me
we've all been there too
Estou rendida a esta música do David Fonseca. É simplesmente genial. Tudo nela se conjuga para atingir a forma perfeita, o som, a letra, o ritmo com aquelas palmas e, claro, a voz dele.
No DVD "Dreams in Loop - Live", David Fonseca toca esta música mostrando-nos todos os arranjos que fez com ela e todos os sons intervenientes. Palmas, voz, um batuque de um instrumento qualquer engraçado que nem sei definifr, piano e acordeão. E depois mistura tudo aquilo, numa ordem que ele tão bem consegue definir na cabeça e (ainda melhor) transportar para o exterior.
É incrível como da cabeça dele saem todos estes sons, como ganha forma um pensamento cantado. Das mil e uma combinações possíveis que ele poderia arranjar com aqueles ritmos diferentes, contrói uma música que se vai desenhando e ganhando cor, forma, tom.
Sempre achei fantástico o processo criativo das músicas, algumas delas tão geniais. Interrogo-me como pode alguém misturar os sons certos de um modo também tão certo, tão natural. Tudo isto porque o meu ouvido não é lá grande coisa, e nestes mundos de músicos só sabe mesmo apreciar o trabalho dos outros, deixando para segundo plano quaiquer tentativas de fazer música. O meu ouvido é bem comportado, sabe que não nasceu para inventar novas miscelâneas de sons, limita-se a ficar ali quietinho a ouvir tudo com muita atenção. É um bom ouvido :)